tag:blogger.com,1999:blog-350725862008-08-26T23:43:49.978+01:008ª Edição"Não escrever é estar-se dentro da vida sem lá estar - ou estar-se nela mutilado, intruso, estéril", in "O Rio Triste", de Fernando NamoraJRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comBlogger192125tag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-30499159643289026972008-08-21T00:43:00.007+01:002008-08-26T00:30:57.726+01:002008-08-26T00:30:57.726+01:00tempo dos amantes#2<div align="justify">não era uma casa virada para o mar, não era uma cabana plantada numa praia selvagem, não era um abrigo cinéfilo. só umas águas furtadas, com um pequeno terraço que espreitava sobre os telhados de Lisboa, de onde pendiam flores vermelhas, amarelas e alaranjadas, misturadas com largas folhas verdes.<br />a casa era velha. decoravam as paredes longas rachas, que as cobriam como heras já idosas. as duas divisões eram a alma daquele pequeno espaço. confortável, melancólica, calorosa, convidava à lascívia. a entrada cobria-se de uma enorme janela no tecto, por onde o céu penetrava desabrido e, à direita, ficava um espaço acanhado, à medida de dois corpos que precisavam de se incendiar, de arder, de se reencontrar...<br />procurei-a para a troca de afagos e carícias que sonhava desde há uns tempos contigo, nos sonhos que tentei afastar e esconder, mas não consegui. eram mais fortes e poderosos que a minha razão. assustaram-me. surpreenderam-me. decidi aceitá-los ao invés de os repudiar. logo se via. mas estava com medo! há muito tempo que não sentia nada assim! sentia-me viva, viva!<br />imaginei-a assim, como a encontrei, como se tivesse sido construída para nós, como se tivesse estado à nossa espera, desde sempre.<br />não sabia ainda o que pensarias de ter procurado um espaço para nós. ainda para mais, sem que te tivesse dito nada. o mais provável é que repudiasses a ideia, agarrando-te às tuas convicções com todas as tuas forças. eu sou mais fraca, carnal e terrena. na minha inferioridade espiritual, queria-te (e quero-te). era a única coisa que sabia: queria-te!<br />se me repudiasses, logo se via. para já, a ideia de ter um espaço nosso sabia-me bem. fazia-me sorrir e isso bastava-me!</div>JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-43322163857748712552008-08-21T00:41:00.002+01:002008-08-21T00:50:22.349+01:002008-08-21T00:50:22.349+01:00tempo dos amantes#1<div align="justify">gosto de subir a rua a caminho da casa. é estreita e íngreme. ainda é feita de largas pedras quadradas, escuras, como se ali o tempo tivesse parado. os passeios, de calçada portuguesa, são mínimos e estão esburacados um pouco por todo o lado. calcorrear a rua de saltos altos é um verdadeiro exercício de equilibrismo. mas a vista compensa. magnífica! adoro subir a rua sem me virar para trás, nem por uma só vez, chegar ao alto e só então contemplar aquelas cores, a serenidade do horizonte, dos estendais sobre o rio, do negro sobre o azul.<br />só depois de inspirar esta vida lisboeta, tão acesa, tão cá dentro, é que abro a porta do prédio, e sorrio!</div>JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-62306625310513609022008-07-20T14:24:00.009+01:002008-07-20T14:35:30.333+01:002008-07-20T14:35:30.333+01:00quando um olhar...<div align="justify">foram os teus olhos, sabias? a intensidade do teu olhar sobre o meu. não mediste forças. não me possuíste. não me violaste. apreciaste-me devagar. lentamente. degustaste o sabor dos meus olhos. fizemos amor. percebeste isso? naqueles segundos que duraram minutos, que duraram horas, que duraram dias? nunca tinha feito amor assim. e gostei! gostei muito! gostei tanto! foram os teus olhos. a culpa é toda dos teus olhos...</div>JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-34829076682701425822008-07-17T09:05:00.008+01:002008-07-20T14:23:42.659+01:002008-07-20T14:23:42.659+01:00apenas porque simSoubesse eu entender<br />a cor vermelha do sangue<br />a magia da lua grávida<br />as bolhas que um peixe canta...<br /><br /><br />Soubesse eu entender<br />o sorriso de um coração perdido<br />o calor de mãos esquecidas<br />a alegria que cruza um olhar...<br /><br />Soubesse eu entender<br />por que sou a tua segunda pele<br />a teia doce que te ampara<br />o voo dos teus lábios sobre os meus...JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-85443578746167302522008-06-08T01:03:00.014+01:002008-06-08T01:34:28.666+01:002008-06-08T01:34:28.666+01:00ventos de mudançasopram as palavras cansadas<br />de tanto repetirem que o amor,<br />esse exercício de assíduo respeito,<br />é o nosso xaile no frio dos dias,<br />a almofada na fadiga das horas.<br /><br />sopram as palavras esgotadas<br />por cairem no chão arenoso<br />e não na terra fértil do berço<br />onde o amanhã se prepara,<br />onde a Terra chora por nós.<br /><br />são as folhas mortas e os<br />arbustos secos e as amoras<br />mirradas e a miragem de<br />um verde extirpado<br />afogado em azul petróleo.<br /><br />vêm ventos de mudança<br />e quem os não entender<br />será espécie em extinção.JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-25734413918850055692008-06-03T20:56:00.005+01:002008-06-03T21:11:37.568+01:002008-06-03T21:11:37.568+01:00ímpetos salgadosperdi as lágrimas na espuma<br />nas ondas nas algas na areia.<br />o mar não nasce nos olhos,<br />mas na força de um peito vivo.<br />não há vazante, nem enchente;<br />aqui, apenas batem marés vivas.JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-71983608774996383452008-06-03T20:17:00.007+01:002008-06-03T20:55:06.572+01:002008-06-03T20:55:06.572+01:00não?<div align="justify">vencer a distância que se abre entre um sim e um não é tarefa árdua, pirueta que se veste num trapézio sem rede, uma aposta no desconhecido. podemos partir do não para chegar ao mesmo não, ainda que pelo meio tenhamos feito uma corrida de obstáculos, dado o melhor de nós, superado as nossas próprias expectativas. podemos partir do não para chegar a outro não, surdo das nossas razões, cego perante o esbracejar dos argumentos que cultivámos na esperança de uma colheita generosa, compensadora. mas podemos partir de um não aberto à aprendizagem, adepto da diversidade, pronto para um confronto inteligente e educado, sem medo de se sentar a um tabuleiro de xadrez. seria um não-talvez-não-na-mesma, um não-talvez-não-tão-não ou até um não-talvez-afinal-um-sim. nem importa muito se este não passaria a ser um sim, se a distância que se venceu entretanto voltaria a alargar-se ou se, finalmente, se estreitaria. interessa, sim, que as distâncias sejam apenas etapas a clamar pelo melhor de nós e que um não se limite a representar um desafio onde depositamos os nossos esforços para nos habilitarmos a alcançar o não seguinte...</div>JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-68194786268684396532008-05-29T21:45:00.020+01:002008-05-29T22:35:53.906+01:002008-05-29T22:35:53.906+01:00reinvento-mereinvento-me.<br /><div align="justify">hoje, nasci com outro nome, outra cor, outro corpo. tenho os pés enfiados na areia, os cabelos a desafiar o vento, num combate de esgrima a saber a sensualidade, um rosto sereno. vejo para lá do que os olhos alcançam. vejo melhor quando fecho os olhos. quando é noite e durmo. quando as mãos acariciam o cimento frio das paredes, para não se perderem da vida, para não se esquecerem que há um hoje, um amanhã. que há um coração que bate. nas mãos faltam-me outras mãos mais pequeninas. falta-me a exaustão da felicidade plena, a cumplicidade que a minha filha adorada me oferece a troco de apenas um mimo. até ao dormir nos amamos, mesmo longe, mesmo nos dias em que vamos à Lua ou a uma estrela distante apenas para brincar às escondidas. ou para nos fazermos cócegas até nos faltar o fôlego e ficarmos apenas a contemplar este Universo. como é belo! porque as minhas partículas já não são só de carne e alma. têm embutida a palavra filha, no seu núcleo a palavra amor.</div><div align="justify"> </div><div align="justify">reinvento-me.</div><div align="justify">hoje, nasci filha da minha filha. porque percebi noutra vida que ela tinha tanto mais do que eu para ensinar. e talvez fizesse sentido, então, que fosse a minha filha a dizer-me como deveria ser, o que teria eu de saber fazer para ser feliz. completa. para crescer e aprender. para ser Pessoa.</div><div align="justify"> </div><div align="justify">reinvento-me.</div><div align="justify">hoje, voltei a nascer filha da minha filha. porque o amor que nos une não se dissolveu com a passagem do tempo. resistiu à transformação de moléculas, à aceleração de partículas, à fusão dos contrários e ao vazio onde era suposto não haver nada. mesmo depois de a memória morrer, houve qualquer coisa que não nos deixou ir. os fios invisíveis que se tecem no ar são tão fortes, tão profundos. há quem faça da vida um grande tear e se dedique à tecelagem de afectos. eu também não os compreendo. mas a verdade é que me lembro de ti, filha. e sei... e sinto... que tu sabes quem sou. será que ainda não nos deixámos ir porque eu não aprendi o que devia? porque eu desconfio que é o teu imenso amor que não desiste de mim...</div><div align="justify"> </div><div align="justify">reinvento-me.</div><div align="justify">hoje, nasci pássaro. águia. sempre quis ser águia. e sobrevoar a montanha nevada sob um sol gélido e pálido. sentir o vento levar-me. elevar-me. brincadeira pegada! e lembro-me de um calor tão intenso, de um coração quente. lembro-me de me amarem e de me ensinarem a amar. lembro-me de... parece uma menina. quem seria? sinto-a tão pura, tão plena. que calor tão bom quando tento recordar este quentinho que me faz sorrir...</div>JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-5299081755394108532008-05-25T10:06:00.031+01:002008-05-25T11:06:10.313+01:002008-05-25T11:06:10.313+01:00na banheira<div align="justify">a carne rasgada das pétalas</div><div align="justify">afoga-se nas lágrimas vazias,</div><div align="justify">escorrendo pelo chão, como sombra,</div><div align="justify">errando num prado sem ecos,</div><div align="justify">e precipita-se sobre as escadas,</div><div align="justify">dilacerada pelo sabor acre do ódio</div><div align="justify">que rejubila com a falta de norte,</div><div align="justify">para cair, violentada, aos pés de Deus.</div><div align="justify">embutida a carvão nos veios da tela, </div><div align="justify">procura, ossuda, um rasgo de sol,</div><div align="justify">uma nesga de mar sob a escuna em ruínas,</div><div align="justify">mas é na jangada ondeante que desperta</div><div align="justify">com a secura a afogar as palavras</div><div align="justify">no delírio de tocar terra firme.</div><div align="justify">escorrega para dentro da água</div><div align="justify">que beija o rebordo da banheira</div><div align="justify">abrindo os olhos no fundo:</div><div align="justify">não é um rosto que se desenha,</div><div align="justify">mas a penugem de asas distendidas</div><div align="justify">e, no bico, uma luz cristalina quente</div><div align="justify">e um beijo que eu não sei descrever...</div>JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-92154673717539694572008-05-18T18:06:00.009+01:002008-05-18T18:22:32.084+01:002008-05-18T18:22:32.084+01:00já não vos conto mais...eu sei.<br />não digas nada.<br />não precisas de dizer nada.<br /><em>sorris</em>...<br />dá-me a tua mão.<br />vamos passear um pouco?<br />está um dia tão agradável, hoje.<br /><em>continuas a sorrir...</em><br />enquanto estiveres aí<br />eu estarei sempre aqui<br />e nós seremos água e fogo.<br /><em>olhas-me, sério</em>...<br />voamos ambos sobre o mar<br />e mergulhamos na montanha.<br />somos versos em desalinho.<br /><em>sorriem, os nossos olhos</em>...<br />como sabe bem respirar este ar<br />que nos preenche por completo<br />e nos rasga o peito em flor...<br /><em>já não vos conto mais</em>...JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-58921770979267979482008-05-18T17:29:00.009+01:002008-05-18T18:06:07.759+01:002008-05-18T18:06:07.759+01:00e a guerra tem nome?o silvo das balas.<br />e na ponta vai escrito:<br />não há Deus para ti!<br />são tantos, tantos, tantos<br />os gritos das memórias<br />que se esfumam<br />demasiado cedo.<br />explodem as minas,<br />decepam os membros,<br />ceifam peitos singulares.<br />arrogância, ignorância.<br />RAIVA!<br />submersos nas trevas,<br />condenados à eternidade,<br />esquivam-se à dor<br />de ser Pessoa<br />fora da escuridão.<br />porque dói! dói!<br />e os olhos brilham<br />nos murros e pontapés,<br />brilham no vazio<br />que a arma oferece,<br />brilham no inferno<br />que arde na imundície,<br />e os olhos néscios,<br />e os olhos cegos,<br />e o deserto que se estende<br />e nos lambe sem piedade<br />e apaga o lume...<br />como se nunca<br />tivéssemos existido.<br />e o fim e o começo.<br />e as escolhas nos dedos<br />que burilamos como se...<br />houvesse todo o tempo do mundo!<br />o silvo dos pensamentos.<br />e na ponta vai escrito:<br />...JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-29610819751095301902008-05-14T23:18:00.014+01:002008-05-15T00:06:35.686+01:002008-05-15T00:06:35.686+01:00o amor também é isto<div align="justify">não era apenas silêncio, o véu que acabava de levantar-se. como nevoeiro cerrado a esconder emoções, parede de betão transparente e sem cor. que interessava se batia um coração? se uma boca desafiava a força da gravidade, tremendo como um sismo, inundada de lágrimas invisíveis? que interessava a tristeza fecundada que os seus olhos deixavam adivinhar? tudo era devolvido por um muro, de incompreensão, de indiferença, de desamor.</div><div align="justify"> </div><div align="justify">e o vento, quando passa e lhe adoça os cabelos, fá-la sentir pássaro, águia sem corpo.</div><div align="justify"> </div><div align="justify">se o mundo sofria mais que o seu pequeno círculo de problemas! mas isso não lhe poupava a secura que violava os seus olhos. não se lembrava do sabor das lágrimas. seria a mar? para quê chorar? nem assim a alma iria conseguir colher as papoilas amendoadas aos lábios do sonho. </div><div align="justify"> </div><div align="justify">águas lisas com um barco velho ao fundo, os remos abandonados na água, oscilando como se em execução de um pas de deux.</div><div align="justify"> </div><div align="justify">não! não era apenas silêncio. era ausência de afectos. teria de aprender a amar sozinha, a sorrir, apenas porque sim, a viver de cabeça erguida, de coração quente, de mãos abertas. teria de moldar os seus próprios afectos, descobri-los no olhar de uma criança, no desabrochar de um girassol, no abanar da cauda de um cão, no cair da noite sobre os ombros da cidade, no reflexo das águas do rio ao entardecer. porque o amor é tão maior do que os Homens! porque o amor é Vida!</div><div align="justify"> </div><div align="justify">hoje, está um dia tão belo! </div><div align="justify">(chovia e a escuridão apoderara-se dos últimos traços de azul do céu)</div>JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-18065558828345632282008-05-12T23:19:00.004+01:002008-05-12T23:40:05.745+01:002008-05-12T23:40:05.745+01:00pobre almado teu fel faço mel<br />como nunca provarás,<br />ao azedume desses dedos<br />arranco as minhas forças,<br />dou à luz estas raízes,<br />abraço os cometas<br />e dou-me toda,<br />dou-me toda - vês? -<br />por inteiro,<br />como virás aqui ler,<br />repetidamente...<br />deleita-te, pobre alma,<br />com esta casa ensolarada,<br />não te vás com essas mãos<br />gretadas de amargura,<br />toma um beijo suave<br />para te adoçar o vazio...<br />não tens culpa,<br />não tiveste foi sorte!JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-42333709568419144852008-05-04T16:06:00.004+01:002008-05-04T16:30:34.680+01:002008-05-04T16:30:34.680+01:00já alguma vez se "apaixonaram" por um escritor?<div align="justify">pois eu, já! e muito recentemente! quero eu dizer, para que não haja mal entendidos, que me apaixonei por uma escrita limpinha - como costumo dizer daquelas de que gosto muito - , mesmo à minha medida, por uma escrita-alma em que cada trecho é amor, é vida, é fogo, é criatividade pura, em que cada trecho nos leva a pensar com um sorriso pendurado no canto dos lábios, deixando-nos, por vezes, sisudos, mas não tristes, pensativos, mas não ausentes, alegres, mas não eufóricos, num ritmo constante que nos recorda o bater do coração, <em>VIDA, vida, VIDA, vida</em>, numa harmonia que começa e acaba em cada virar de página, da primeira à última palavra.</div><div align="justify"> </div><div align="justify">estou a falar de José Eduardo Agualusa e do seu livro "O Vendedor de Passados", do qual vos deixo aqui um trecho, a meu ver, comovente. se ainda não leram, leiam. vale a pena!</div><div align="justify"> </div><div align="justify">"Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre. Eu fui feliz para sempre na minha infância, lá na Gabela, durante as férias grandes, enquanto tentava construir uma cabana nos troncos de uma acácia. Fui feliz para sempre nas margens de um riacho, uma corrente de água tão humilde que dispensava o luxo de um nome, embora orgulhoso o suficiente para que o achássemos mais do que um simples riacho - era o Rio. Corria entre lavras de milho e mandioca, e íamos para lá caçar girinos, passear improvisados barcos a vapor, e também, à tardinha, espreitar as lavadeiras a tomar banho. Fui feliz com o meu cão, o <em>Cabiri</em>, fomos os dois felizes para sempre, perseguindo rolas e coelhos através das tardes longas, jogando às escondidas em meio ao capim alto. Fui feliz no convés do <em>Príncipe Perfeito</em>, numa viagem eterna entre Luanda e Lisboa, lançando ao mar garrafas com mensagens ingénuas. <em>A quem encontrar esta garrafa agradeço que me escreva</em>. Nunca ninguém me escreveu. (...)"</div>JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-83472286998198171242008-05-04T15:41:00.005+01:002008-05-04T16:03:22.140+01:002008-05-04T16:03:22.140+01:00Der Kussrevisitei-nos nos traços daquele beijo,<br />nos afagos que cantavam em silêncio,<br />foragidos no roçar das nossas vestes,<br />nos abraços apertados que me deste,<br />nos teus olhos a correr para o mar.<br />redescobri que existe um nós possante,<br />quando preenches o cerrar das pálpebras,<br />sempre que me espreitas de longe,<br />em cada espaço em branco desbravado,<br />no começo e fim de cada instante.<br />moldei as memórias com a língua,<br />aqueci-as com um coração cansado,<br />apertei-as junto ao peito fendido<br />e com elas pintei os meus lábios.<br />se é amor o que me queres dar,<br />serei o teu porto de abrigo,<br />das tempestades violentas,<br />da secura bolçada por sóis salgados,<br />se é amor o que me tens,<br />serei um pedaço da tua completude,<br />o sangue da tua vida.<br />se é amor...<br /><br />(título de uma tela de Gustav Klimt)<br /><br />Para ti...JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-69112109241140283862008-04-20T22:43:00.010+01:002008-05-02T13:47:14.402+01:002008-05-02T13:47:14.402+01:00livrequando nos achamos livres,<br />descobrimo-nos prisioneiros<br />desta teia que é a vida,<br />rodeados de clausura,<br />muros altos e surdos,<br />bocas cerradas e sérias,<br />mãos encobertas de névoa,<br />pontos longínquos sem brilho.<br />quando nos achamos livres,<br />descobrimo-nos reféns<br />de tempestades incolores,<br />mergulhados na frieza<br />de campos sem flores,<br />no pó estéril do caminho,<br />na indiferença da bênção<br />aspergida pela chuva.<br />uma pedra é mais livre<br />do que uma alma dorida,<br />sonha mais e mais alto<br />que um coração recluso,<br />pois ela sabe que amar<br />é fazer parte de tudo,<br />saber ser uma pedra<br />e deixar-se voar...JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-550639349194196922008-04-17T17:45:00.007+01:002008-04-17T18:32:33.538+01:002008-04-17T18:32:33.538+01:00entre alfa e ómeganão sou nada.<br />não sei nada.<br />só agora comecei.<br />os passos que julgara<br />já ter abocanhado,<br />como se na construção<br />de alicerces inabaláveis,<br />nada mais são que o local<br />onde desabotoo o começo,<br />onde renuncio ao engano,<br />onde me procuro<br />para além de mim,<br />na circunferência onde habito<br />desde o primeiro tempo,<br />desde o primeiro grão,<br />semeada na terra<br />pela boca do dragão.<br />sou o seio da mãe<br />que ainda não provei,<br />o rosto da luz<br />adormecida na besta,<br />sou local inexacto<br />que quer ser fecundado<br />por um fragmento de espaço<br />cravado no peito do tempo...<br />ali...<br />onde renascerei.JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-9174519126802664572008-04-15T00:00:00.004+01:002008-04-15T00:06:07.852+01:002008-04-15T00:06:07.852+01:00obrigada!<div align="justify">O joão ricardo lopes, cujos talentosos textos pode ler <a href="http://diasdesiguais.blogspot.com/">aqui,</a> dedicou-me este belo poema, que muito me sensibilizou...</div><br />pélago<br /><br />ainda que outra coisa digam de ti<br />és tu quem domina a musculatura<br />das palavras, tu, azul tão pródigo<br />rondando a coroa dos olhos como<br />um verso exacto para nós nascidoJRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-25126670669176673372008-04-11T00:10:00.002+01:002008-04-11T00:16:00.912+01:002008-04-11T00:16:00.912+01:00ainda não era o tempoainda não era o tempo<br />de a lua se despir<br />enquanto declamava<br />os peixes que ondulavam<br />no seu ventre macio,<br /><br />ainda não era o tempo<br />de o eco distante se libertar<br />penetrando nos poros sequiosos<br />das bocas que abriam caminho<br />ao voo dos girassóis,<br /><br />ainda não era o tempo<br />de a alma chorar<br />estrelas-do-mar e ouriços<br />enquanto cantava o silêncio<br />de um amor quebrado no molhe,<br /><br />ainda não era o tempo<br />-ouvia-se-<br />ainda não era o tempo<br />de as horas não existirem<br />no entrelaçar de sorrisos<br />na dança de olhares vivos<br />no alento de um amor sonhado.JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-60094862498436996092008-03-16T16:30:00.002Z2008-03-16T16:48:37.285Z2008-03-16T16:48:37.285Zaté breve<div align="justify">Há alturas próprias para tudo: para amar, para construir, para repousar, para dar, para receber, para ouvir, para falar, para sorrir, para chorar, para escrever, para estar em silêncio. Chegou a altura de fazer uma interrupção. </div><div align="justify">Obrigada por tudo, a todos.</div>JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-43341418094698895002008-03-12T19:56:00.007Z2008-03-13T14:48:52.209Z2008-03-13T14:48:52.209ZAviso<div align="justify">Parece que alguém anda a divertir-se a apagar blogues de outras pessoas. Foi o que sucedeu com a minha amiga alice, cujo blogue "a tradução da memória" foi dolosamente apagado sem o seu consentimento ou conhecimento e foi o que sucedeu com o nosso blogue conjunto "anunciação do mundo", que mereceu o mesmo destino.</div><div align="justify">Há alguém profunda e gravemente perturbado que se diverte neste momento a "apagar" da blogosfera quem tem valor, como se isso apagasse as pessoas que dão brilho aos blogues fantásticos que podemos visitar.</div><div align="justify">É próprio dos fracos e dos cobardes esconder os actos mais vis no anonimato, escolher quem não pode competir com eles na vilania, achar que podem manchar a beleza de obras imbuídas de uma elevação espiritual que nunca conseguiriam igualar ou entender. </div><div align="justify">É lamentável, mas até agora parece que nos resta apenas um sentimento de impotência perante a impunidade destas criaturas.</div><div align="justify">O blogue do António Gregório, "diário dócil", que eu supusera ter sido apagado da mesma forma, afinal, acabou por vontade do próprio autor, pelo que fica aqui a devida nota.</div>JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-74511584745825026862008-03-10T22:16:00.002Z2008-03-10T22:18:36.473Z2008-03-10T22:18:36.473Za fomesou a herege maldita,<br />clamor inaudível de trevas,<br />cegueira da vela apagada<br />no sopro da porta fechada,<br />acólita do funesto punhal<br />no silêncio pecaminoso,<br />assassina do fulgor da luz<br />na insídia da traição.<br />chamo-me fome.JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-2812838975352759252008-03-10T22:09:00.002Z2008-03-10T22:15:31.434Z2008-03-10T22:15:31.434Znão tenhas medose tropeçar, receosa, nos teus ramos,<br />não te recolhas à terra sem mim.<br />não tenhas medo, eu estou aqui.<br />enlaça-me nos bagos que me sorris<br />e ensina-me como se semeia um sol.JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-54629720300237655622008-03-06T21:45:00.004Z2008-03-06T22:12:43.302Z2008-03-06T22:12:43.302Za noitea noite que escorrega<br />nas paredes caiadas<br />apaga a claridade incerta<br />dos momentos<br />que estes dedos<br />creram tocar ao de leve.<br /><br />breves os sorrisos<br />devolvidos pelo sangue<br />enraivecido de nós.<br /><br />a noite que desliza<br />sobre o piano<br />desabitado de pautas<br />esconde o rosto<br />das mãos ásperas<br />que espreitam em surdina.<br /><br />o dia escurece<br />com o sabor do sangue<br />que me afoga no voo.<br /><br />noite do meu dia.JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-35072586.post-59700593874559639692008-03-04T12:54:00.005Z2008-03-04T13:50:03.385Z2008-03-04T13:50:03.385Zpropositadamente sem título<div align="justify">deixa-os.</div><div align="justify"></div><div align="justify">deixa-os falar dos meus textos.</div><div align="justify"></div><div align="justify">apenas exprimem o exercício do inconsciente no modo como me absorveu.</div><div align="justify"></div><div align="justify">das palavras encadeadas que as minhas mãos teceram convocará cada corpo os pedaços que lhe faltarem.</div><div align="justify"></div><div align="justify">trazemos do que lemos só o que nos complementa. livramo-nos do excesso para não pesar mais.</div><div align="justify"></div><div align="justify">não é na massa que está a essência. a essência está aqui... vês? está na luz das letras.</div><div align="justify"></div><div align="justify">(escuta...)</div>JRLhttp://www.blogger.com/profile/17452053823076897837noreply@blogger.com