tive um tio-avô com quem andei uma vez por outra de braço dado pelas avenidas novas de Lisboa. nos seus últimos tempos, contava já com uma idade avançada, mas não era menos arguto e atento do que sempre fôra. adorava aquele meu tio. era muito bonito, uma pessoa meiga, calma e tinha um carinho especial por mim. era um homem cultíssimo, sobretudo no tocante à história do nosso país. todos gostavam dele, mas poucos tinham paciência para o ouvir e dar-lhe um pouco de atenção. perto dele, o tempo andava de modo diferente. perto dele, o coração ficava mais quente. perto dele, a vida era mais bonita. contou-me muito da história de Portugal, relativamente à qual sempre fui muito ignorante. e começava sempre por me perguntar: sabes o que aconteceu quando... - ou então - sabes quem foi...? - e eu dizia quase sempre - não tio, infelizmente, não sei. conte-me lá...
e o meu tio contava-me todo o seu saber, discutia teses de história de ilustres conhecidos, falava-me da história da terra do meu pai (e dele), e como teve foral antes da respectiva capital de distrito, e tantas outras coisas. tudo com um sorriso. tudo com muita vida a brilhar-lhe nos olhos.
só quando falávamos de política é que entre nós se instalava um certo mal-estar, logo ultrapassado depois de breve argumentação e um silêncio cirúrgico da minha parte. era o nosso grão na engrenagem... tudo o resto fluía lindamente. e tudo o resto era o mais importante.
passados estes poucos anos sobre a data da sua morte, continuo a senti-lo vivo, como se viesse colocar-se a meu lado, fazendo-me companhia nas horas mais incertas. só tenho pena de o ter "descoberto" tão a desoras, de ter usufruído da sua companhia durante tão curto espaço de tempo.
para além deste meu querido tio-avô, outras duas pessoas pesam bastante na minha memória. quando cada um deles se foi, a vida ficou mais pobre, irremediavelmente mais pobre. serão sempre insubstituíveis. serão sempre únicos. e fazem parte de mim. a partilha de vida que cada um deles se dignou fazer comigo não tem nome, não tem preço.
morro de saudades. amo-os muito. entre tantas outras coisas, ensinaram-me que, na vida, mais importante do que qualquer palavra é o que estamos dispostos a fazer por quem gostamos. é o que marca a diferença. por isso é tão importante saber distinguir o que se diz do que se faz. é um importante exercício de higiene para percebermos o que, realmente, conta.
17 comentários:
as palavras sabias...
a singularidade do pensamento...
sim...vejo-te assim...
acompanhada de quem nos da sempre algo...
alguem que tambem esteja disposto a receber...dar sem pedir...receber so por ouvir...
pois é...
um beijo com carinho
é bom quando as pessoas nos marcam, assim... e em relação às quais temos moemórias doces e fortes. eu tenho vários casos destes. ainda bem que os temos, não é?
um beijo e obrigada pelas tuas belíssimas e sentidas palavras.
As pessoas como o teu tio fazem cada vez mais falta, sobretudo num mundo em que o conhecimento e os valores são cada vez mais uma "seca" e as faltas de respeito e a ignorância o nirvana que parece ser necessário atingir sob pena de não se ser cidadão meritório deste país que nos deixaram. Quanto às "desopiniões" políticas, uma amigo um dia disse-me: "se quiseres destruir uma conversa em menos de nada, fala de política ou de religião"... Beijo!
Belíssimo texto. E o que conta é vivê-los enquanto os temos.
amiga joana. qual é o teu instrumento favorito. já tenho piano e contrabaixo. queres ficar a tocar o quê? beijinho grande.
como sempre gostei muito de ler o teu texto embora tenha consciência que precise de fazer muito exercício ...pela boca morre o peixe.
tanico
Excelente texto, bem revelador da beleza do sentimento que transmite.
Um beijo, Joana.
Há pessoas que deixam uma marca indelével nas nossas vidas. Guardamo-las sempre dentro de nós. Bom é conseguir fazer-lhes sentir quão importantes são, enquanto vivem.
muito obrigada a todos pelas vossas palavras e pelas visitas.
As boas memórias, de quem nos deixa saudades, são tão boas.
Percebo perfeitamente o sentimento.
Aproveito para agradecer a visita ao "Cantinho..."
Um beijinho
Paula Nunes Lima
bonita homenagem, Joana.
beijinhos.
paula e maria,
muito obrigada. :)
ps: paula, tenho de fazer um link directo para ti. uma beijoca
Olá Joana,
Já aqui tinha vindo várias vezes, mas nunca deixado comentário.
Gostei muito deste post, identifico-me com ele. Tive um avô assim que também não aproveitei, pois faleceu quando eu tinha 18 anos. Não tínhamos nenhum grão na engrenagem, a política era o tema essencial. A minha idade verde não soube foi colocar as perguntas.
Passeávamos na baixa quando eu era muito pequena e levava-me a comer bolos ou torradas. Ao lado dele eu não era criança...
Stella
Olá Stella,
Muito obrigada pela visita e pela partilha. Um abraço.
e por vezes há coisas tão pequenas que têm um valor incalculável..
abraço
luísa
tens razão, luisa. obrigada pela visita.
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