Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

ter-te...

«São dois verbos distintos, o verbo "amar" e o verbo "ter". A posse destrói sempre o amor». In "A Última Conversa - Agostinho da Silva"
Segurei-te em parte incerta
Do meu peito, do meu ventre,
Sem mãos, sem braços,
Folheei-te ao roer uma maçã,
E li os sorrisos que me abres
Num tempo que não é este,
Que nem sequer é nosso,
Descobri em ti passeios virgens
Que atordoam os sentidos,
Sem tocar os teus lábios,
Os teus olhos, o teu rosto,
Ter-te perto, no meu ombro,
Quando a música me invade
E se dispersa como grãos de pó.
Não há amores-perfeitos
Que caibam em mãos humanas.
Ninguém quer um segundo ímpar,
Ainda que o não saiba.
Ninguém quer dois minutos em chama,
Ainda que grite ao nada por eles.
Troco o fogo por sorrisos,
Os tremores por afagos,
O indizível pelo dizível.
Antes ter-te para sempre
Que perder-te num instante...
Ainda que ter-te
Seja não te ter de todo...

11 comentários:

~pi disse...

na nossa cultura,

não sabemos viver sem posse.

talvez

aprender

devagarinho!?

Anónimo disse...

well um dia explico a minha tese..

JRL disse...

olá, querida ~pi,
Acho que tens toda a razão. O mote que me levou a escrever o poema tinha também por objectivo trazer a discussão (a saudável) sobre o assunto, mas apenas tu e o oskar (suponho) o afloraram... ;). É, no mínimo, curioso... :) Beijos.

Oskar (?!)
E por que não aqui mesmo? Eu bem me esforço por fazer deste espaço um lugar de discussão... ;). Um beijo. Recebeste o meu mail?

Carlos Ramos disse...

Não nos temos a nós totalmente,porque aspiramos a essa tarefa em relação ao outro?

bj.

JRL disse...

Olá Carlos,
:) Ter,possuir, será amar? :) E temo-nos? Talvez nem sempre por completo... um beijo grande para ti, meu bom amigo.

Ad astra disse...

Exupery já dizia em "Cidadela":

"Não confundas o amor com o delírio da posse, que acarreta os piores sofrimentos. Porque, contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer.
O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse é que faz sofrer. (...) Eu sei assim reconhecer aquele que ama verdadeiramente:
O amor verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca."

agora que este poema está absolutamente fantástico, está sim senhora

só por isto, mil beijos

JRL disse...

mademoiselle...
merci de votres mots... quel ajout! gros bisous

Maria Laura disse...

Não tinha comentado este poema que me diz tanto. Puseste nas palavras essas oscilações de sentimentos que raramente sabemos resolver. Porque embora racionalmente pensemos que amar nos basta, gritamos muitas vezes pelo fogo.
Um poema belo mas não só...:)

JRL disse...

maria laura,
sou apenas eu a matutar... ;) um beijo

nana disse...

" mesmo que tivesse como inimigos
todos os deuses e os azuras
juntos não seriam capazes
de me arrastar para o inferno.

mas as paixões, esses poderosos inimigos,
lançam-me, num abrir e fechar de olhos, num fogo tal
que até o monte meru derreteria
sem deixar a mais pequena cinza."

(shantideva)




...


dá que pensar, não é?......

lembrei-me, quando li teu texto..


um beijo.

JRL disse...

Dá, pois, linda nana ;)
Muito obrigada oela tua visita e pelo comentário. Um beijinho...