Domingo, 18 de Maio de 2008

já não vos conto mais...

eu sei.
não digas nada.
não precisas de dizer nada.
sorris...
dá-me a tua mão.
vamos passear um pouco?
está um dia tão agradável, hoje.
continuas a sorrir...
enquanto estiveres aí
eu estarei sempre aqui
e nós seremos água e fogo.
olhas-me, sério...
voamos ambos sobre o mar
e mergulhamos na montanha.
somos versos em desalinho.
sorriem, os nossos olhos...
como sabe bem respirar este ar
que nos preenche por completo
e nos rasga o peito em flor...
já não vos conto mais...

e a guerra tem nome?

o silvo das balas.
e na ponta vai escrito:
não há Deus para ti!
são tantos, tantos, tantos
os gritos das memórias
que se esfumam
demasiado cedo.
explodem as minas,
decepam os membros,
ceifam peitos singulares.
arrogância, ignorância.
RAIVA!
submersos nas trevas,
condenados à eternidade,
esquivam-se à dor
de ser Pessoa
fora da escuridão.
porque dói! dói!
e os olhos brilham
nos murros e pontapés,
brilham no vazio
que a arma oferece,
brilham no inferno
que arde na imundície,
e os olhos néscios,
e os olhos cegos,
e o deserto que se estende
e nos lambe sem piedade
e apaga o lume...
como se nunca
tivéssemos existido.
e o fim e o começo.
e as escolhas nos dedos
que burilamos como se...
houvesse todo o tempo do mundo!
o silvo dos pensamentos.
e na ponta vai escrito:
...

Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

o amor também é isto

não era apenas silêncio, o véu que acabava de levantar-se. como nevoeiro cerrado a esconder emoções, parede de betão transparente e sem cor. que interessava se batia um coração? se uma boca desafiava a força da gravidade, tremendo como um sismo, inundada de lágrimas invisíveis? que interessava a tristeza fecundada que os seus olhos deixavam adivinhar? tudo era devolvido por um muro, de incompreensão, de indiferença, de desamor.
e o vento, quando passa e lhe adoça os cabelos, fá-la sentir pássaro, águia sem corpo.
se o mundo sofria mais que o seu pequeno círculo de problemas! mas isso não lhe poupava a secura que violava os seus olhos. não se lembrava do sabor das lágrimas. seria a mar? para quê chorar? nem assim a alma iria conseguir colher as papoilas amendoadas aos lábios do sonho.
águas lisas com um barco velho ao fundo, os remos abandonados na água, oscilando como se em execução de um pas de deux.
não! não era apenas silêncio. era ausência de afectos. teria de aprender a amar sozinha, a sorrir, apenas porque sim, a viver de cabeça erguida, de coração quente, de mãos abertas. teria de moldar os seus próprios afectos, descobri-los no olhar de uma criança, no desabrochar de um girassol, no abanar da cauda de um cão, no cair da noite sobre os ombros da cidade, no reflexo das águas do rio ao entardecer. porque o amor é tão maior do que os Homens! porque o amor é Vida!
hoje, está um dia tão belo!
(chovia e a escuridão apoderara-se dos últimos traços de azul do céu)

Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

pobre alma

do teu fel faço mel
como nunca provarás,
ao azedume desses dedos
arranco as minhas forças,
dou à luz estas raízes,
abraço os cometas
e dou-me toda,
dou-me toda - vês? -
por inteiro,
como virás aqui ler,
repetidamente...
deleita-te, pobre alma,
com esta casa ensolarada,
não te vás com essas mãos
gretadas de amargura,
toma um beijo suave
para te adoçar o vazio...
não tens culpa,
não tiveste foi sorte!

Domingo, 4 de Maio de 2008

já alguma vez se "apaixonaram" por um escritor?

pois eu, já! e muito recentemente! quero eu dizer, para que não haja mal entendidos, que me apaixonei por uma escrita limpinha - como costumo dizer daquelas de que gosto muito - , mesmo à minha medida, por uma escrita-alma em que cada trecho é amor, é vida, é fogo, é criatividade pura, em que cada trecho nos leva a pensar com um sorriso pendurado no canto dos lábios, deixando-nos, por vezes, sisudos, mas não tristes, pensativos, mas não ausentes, alegres, mas não eufóricos, num ritmo constante que nos recorda o bater do coração, VIDA, vida, VIDA, vida, numa harmonia que começa e acaba em cada virar de página, da primeira à última palavra.
estou a falar de José Eduardo Agualusa e do seu livro "O Vendedor de Passados", do qual vos deixo aqui um trecho, a meu ver, comovente. se ainda não leram, leiam. vale a pena!
"Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre. Eu fui feliz para sempre na minha infância, lá na Gabela, durante as férias grandes, enquanto tentava construir uma cabana nos troncos de uma acácia. Fui feliz para sempre nas margens de um riacho, uma corrente de água tão humilde que dispensava o luxo de um nome, embora orgulhoso o suficiente para que o achássemos mais do que um simples riacho - era o Rio. Corria entre lavras de milho e mandioca, e íamos para lá caçar girinos, passear improvisados barcos a vapor, e também, à tardinha, espreitar as lavadeiras a tomar banho. Fui feliz com o meu cão, o Cabiri, fomos os dois felizes para sempre, perseguindo rolas e coelhos através das tardes longas, jogando às escondidas em meio ao capim alto. Fui feliz no convés do Príncipe Perfeito, numa viagem eterna entre Luanda e Lisboa, lançando ao mar garrafas com mensagens ingénuas. A quem encontrar esta garrafa agradeço que me escreva. Nunca ninguém me escreveu. (...)"

Der Kuss

revisitei-nos nos traços daquele beijo,
nos afagos que cantavam em silêncio,
foragidos no roçar das nossas vestes,
nos abraços apertados que me deste,
nos teus olhos a correr para o mar.
redescobri que existe um nós possante,
quando preenches o cerrar das pálpebras,
sempre que me espreitas de longe,
em cada espaço em branco desbravado,
no começo e fim de cada instante.
moldei as memórias com a língua,
aqueci-as com um coração cansado,
apertei-as junto ao peito fendido
e com elas pintei os meus lábios.
se é amor o que me queres dar,
serei o teu porto de abrigo,
das tempestades violentas,
da secura bolçada por sóis salgados,
se é amor o que me tens,
serei um pedaço da tua completude,
o sangue da tua vida.
se é amor...

(título de uma tela de Gustav Klimt)

Para ti...

Domingo, 20 de Abril de 2008

livre

quando nos achamos livres,
descobrimo-nos prisioneiros
desta teia que é a vida,
rodeados de clausura,
muros altos e surdos,
bocas cerradas e sérias,
mãos encobertas de névoa,
pontos longínquos sem brilho.
quando nos achamos livres,
descobrimo-nos reféns
de tempestades incolores,
mergulhados na frieza
de campos sem flores,
no pó estéril do caminho,
na indiferença da bênção
aspergida pela chuva.
uma pedra é mais livre
do que uma alma dorida,
sonha mais e mais alto
que um coração recluso,
pois ela sabe que amar
é fazer parte de tudo,
saber ser uma pedra
e deixar-se voar...

Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

entre alfa e ómega

não sou nada.
não sei nada.
só agora comecei.
os passos que julgara
já ter abocanhado,
como se na construção
de alicerces inabaláveis,
nada mais são que o local
onde desabotoo o começo,
onde renuncio ao engano,
onde me procuro
para além de mim,
na circunferência onde habito
desde o primeiro tempo,
desde o primeiro grão,
semeada na terra
pela boca do dragão.
sou o seio da mãe
que ainda não provei,
o rosto da luz
adormecida na besta,
sou local inexacto
que quer ser fecundado
por um fragmento de espaço
cravado no peito do tempo...
ali...
onde renascerei.

Terça-feira, 15 de Abril de 2008

obrigada!

O joão ricardo lopes, cujos talentosos textos pode ler aqui, dedicou-me este belo poema, que muito me sensibilizou...

pélago

ainda que outra coisa digam de ti
és tu quem domina a musculatura
das palavras, tu, azul tão pródigo
rondando a coroa dos olhos como
um verso exacto para nós nascido

Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

ainda não era o tempo

ainda não era o tempo
de a lua se despir
enquanto declamava
os peixes que ondulavam
no seu ventre macio,

ainda não era o tempo
de o eco distante se libertar
penetrando nos poros sequiosos
das bocas que abriam caminho
ao voo dos girassóis,

ainda não era o tempo
de a alma chorar
estrelas-do-mar e ouriços
enquanto cantava o silêncio
de um amor quebrado no molhe,

ainda não era o tempo
-ouvia-se-
ainda não era o tempo
de as horas não existirem
no entrelaçar de sorrisos
na dança de olhares vivos
no alento de um amor sonhado.

Domingo, 16 de Março de 2008

até breve

Há alturas próprias para tudo: para amar, para construir, para repousar, para dar, para receber, para ouvir, para falar, para sorrir, para chorar, para escrever, para estar em silêncio. Chegou a altura de fazer uma interrupção.
Obrigada por tudo, a todos.

Quarta-feira, 12 de Março de 2008

Aviso

Parece que alguém anda a divertir-se a apagar blogues de outras pessoas. Foi o que sucedeu com a minha amiga alice, cujo blogue "a tradução da memória" foi dolosamente apagado sem o seu consentimento ou conhecimento e foi o que sucedeu com o nosso blogue conjunto "anunciação do mundo", que mereceu o mesmo destino.
Há alguém profunda e gravemente perturbado que se diverte neste momento a "apagar" da blogosfera quem tem valor, como se isso apagasse as pessoas que dão brilho aos blogues fantásticos que podemos visitar.
É próprio dos fracos e dos cobardes esconder os actos mais vis no anonimato, escolher quem não pode competir com eles na vilania, achar que podem manchar a beleza de obras imbuídas de uma elevação espiritual que nunca conseguiriam igualar ou entender.
É lamentável, mas até agora parece que nos resta apenas um sentimento de impotência perante a impunidade destas criaturas.
O blogue do António Gregório, "diário dócil", que eu supusera ter sido apagado da mesma forma, afinal, acabou por vontade do próprio autor, pelo que fica aqui a devida nota.

Segunda-feira, 10 de Março de 2008

a fome

sou a herege maldita,
clamor inaudível de trevas,
cegueira da vela apagada
no sopro da porta fechada,
acólita do funesto punhal
no silêncio pecaminoso,
assassina do fulgor da luz
na insídia da traição.
chamo-me fome.

não tenhas medo

se tropeçar, receosa, nos teus ramos,
não te recolhas à terra sem mim.
não tenhas medo, eu estou aqui.
enlaça-me nos bagos que me sorris
e ensina-me como se semeia um sol.

Quinta-feira, 6 de Março de 2008

a noite

a noite que escorrega
nas paredes caiadas
apaga a claridade incerta
dos momentos
que estes dedos
creram tocar ao de leve.

breves os sorrisos
devolvidos pelo sangue
enraivecido de nós.

a noite que desliza
sobre o piano
desabitado de pautas
esconde o rosto
das mãos ásperas
que espreitam em surdina.

o dia escurece
com o sabor do sangue
que me afoga no voo.

noite do meu dia.

Terça-feira, 4 de Março de 2008

propositadamente sem título

deixa-os.
deixa-os falar dos meus textos.
apenas exprimem o exercício do inconsciente no modo como me absorveu.
das palavras encadeadas que as minhas mãos teceram convocará cada corpo os pedaços que lhe faltarem.
trazemos do que lemos só o que nos complementa. livramo-nos do excesso para não pesar mais.
não é na massa que está a essência. a essência está aqui... vês? está na luz das letras.
(escuta...)

Domingo, 2 de Março de 2008

saudades...

tive um tio-avô com quem andei uma vez por outra de braço dado pelas avenidas novas de Lisboa. nos seus últimos tempos, contava já com uma idade avançada, mas não era menos arguto e atento do que sempre fôra. adorava aquele meu tio. era muito bonito, uma pessoa meiga, calma e tinha um carinho especial por mim. era um homem cultíssimo, sobretudo no tocante à história do nosso país. todos gostavam dele, mas poucos tinham paciência para o ouvir e dar-lhe um pouco de atenção. perto dele, o tempo andava de modo diferente. perto dele, o coração ficava mais quente. perto dele, a vida era mais bonita. contou-me muito da história de Portugal, relativamente à qual sempre fui muito ignorante. e começava sempre por me perguntar: sabes o que aconteceu quando... - ou então - sabes quem foi...? - e eu dizia quase sempre - não tio, infelizmente, não sei. conte-me lá...
e o meu tio contava-me todo o seu saber, discutia teses de história de ilustres conhecidos, falava-me da história da terra do meu pai (e dele), e como teve foral antes da respectiva capital de distrito, e tantas outras coisas. tudo com um sorriso. tudo com muita vida a brilhar-lhe nos olhos.
só quando falávamos de política é que entre nós se instalava um certo mal-estar, logo ultrapassado depois de breve argumentação e um silêncio cirúrgico da minha parte. era o nosso grão na engrenagem... tudo o resto fluía lindamente. e tudo o resto era o mais importante.
passados estes poucos anos sobre a data da sua morte, continuo a senti-lo vivo, como se viesse colocar-se a meu lado, fazendo-me companhia nas horas mais incertas. só tenho pena de o ter "descoberto" tão a desoras, de ter usufruído da sua companhia durante tão curto espaço de tempo.
para além deste meu querido tio-avô, outras duas pessoas pesam bastante na minha memória. quando cada um deles se foi, a vida ficou mais pobre, irremediavelmente mais pobre. serão sempre insubstituíveis. serão sempre únicos. e fazem parte de mim. a partilha de vida que cada um deles se dignou fazer comigo não tem nome, não tem preço.
morro de saudades. amo-os muito. entre tantas outras coisas, ensinaram-me que, na vida, mais importante do que qualquer palavra é o que estamos dispostos a fazer por quem gostamos. é o que marca a diferença. por isso é tão importante saber distinguir o que se diz do que se faz. é um importante exercício de higiene para percebermos o que, realmente, conta.

Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

o que queres que te diga

se é no silêncio que se movem

as palavras que habitam

a sombra dos meus dias?

se olhares para os meus olhos

verás tudo o que tenho para te dar,

te dizer, te oferecer.

não sou mais do que isto.

não sei mais do que isto:

uma mão na outra

um sussurro no vento

uma lágrima teimosa

um beijo no rosto
uma memória futura...

Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

passos

depois da palavra,
a lenta absorção de ti.
depois da voz,
a inquietude da falta de ti.
depois dos olhos,
a dolorosa procura de mim.
não quero perder-me
quando te percorrer.

voar

Hoje, não tenho palavras bonitas para dizer, nem telas para descrever, ou sentimentos para pintar. Ocorre-me apenas que em mim pulsa uma só palavra. E ela é para ti, de mim para ti, só para ti. E tu sabes qual é.
Se em ti tens a mesma palavra, deixa-me voar, liberta-me. Não me prendas as asas porque eu preciso de voar, de rasar as ondas e a boca dos vulcões e as arestas das nuvens.
Pássaro acorrentado ao desejo de voar. Presa ao sonho de Ser fora do corpo sem asas. Nunca me canso de palmilhar a cartografia das correntes de ar depois de me lançar na frescura de cada voo que me procura, em cada dia.

Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

pensamento...

Os problemas reais desta vida devem fazer com que os outros se reduzam à sua verdadeira dimensão! Saibamos colocar cada coisa no seu devido lugar e a nossa atenção focar-se-á no que, de facto, importa e naquilo que tem alguma coisa para nos ensinar nesta vida.
Não será sempre fácil, pois não! Mas tentar é já dar um primeiro passo. E um primeiro passo é o começo de tudo...

mais mimos...



A minha querida amiga ad astra do blogue com o mesmo nome deu-me este mimo. É suposto repassá-lo a sete outros blogues. Ad astra, amiga minha muito especial, a ti não to posso dar de volta (lol... posso fazer batota...), e acho que vou atribuí-lo a cada uma das pessoas que me visita e me dá tanta coisa, que para mim significa tanto. Tantas são já as pessoas que passaram a ocupar um espaço dentro de mim. Obrigada por se terem cruzado comigo. Obrigada por terem perdido o vosso tempo a dar-me atenção. Um abraço a todos...

Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008

Bom, pelos vistos, o blogue recentemente lançado da anunciaçao do mundo foi um projecto que não chegou a bom porto. Não vos posso explicar a razão de ser do que sucedeu, porque a desconheço, mas, tal como a alice, peço desculpa a quem teve a gentileza de nos visitar.
Obrigada.

Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

porquê?

envergonha-te a nudez,
a macieza de um ventre,
a generosidade de um peito,

mas é de frente que vês o sangue
que comeu uma bala
no corpo de uma criança...

escondes o rosto do amor,
dos prazeres mundanos,
do fogo que arde sem O2,

mas olhas para a guerra abjecta
que se alimenta dos indefesos
cuspindo almas com altivez...

por que te escondes do que é belo
mas enfrentas o execrável?

Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008

sabemo-nos

acordou despido de música,
vazio de tons quentes,
ausente de afectos curvos...

não sabia ainda de mim

acordei sem a frescura
de uma gota de orvalho
resvalando pela fronte...

não sabia ainda dele

acordámos um no outro
sem saber que o Inverno
cedera a uma nova era...

não sabíamos ainda um do outro

sentiu-me nas gotas de chuva
e no vento que lhe roubou um beijo
e no silêncio que se agitava na alma...

e assim soube de mim

senti-o na estrela da manhã
e na neblina que me calou o rosto
e na semente que germinava em mim...

e assim soube dele

e ainda que não nos cruzássemos
nas linhas destas folhas de papel,
nas horas desta vida errante,
nos astros para lá do amanhã,
sabíamos tudo o que havia a saber...

e assim sabíamos um do outro

Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

12 palavras

O Huckleberry Friend, do blogue codornizes, lançou-me o desafio de partilhar 12 palavras. Aí estão elas:
A vida dos pólos
na imensidão da água
generosa em beleza
reclama o meu amor
aberto num afago
que mergulha livre
na amizade de uma foca
sedenta de alimento,
na ternura de um urso
que busca um olhar
meigo sobre a massa
de gelo que abriga o lume.

Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

quando uma voz

quando uma voz nos levanta e permanecemos sentados..., nos cala o silêncio e não ouvimos mais nada..., nos conduz por ali, entre a espuma, os fetos que pendem, a areia quente, os sargaços agarrados à praia, as pinhas, a urze... Quando uma voz tem o condão de parar o tempo, deixando-o a bailar perante os nossos olhos... Quando suspendemos as mãos e as recolhemos das lágrimas em que a voz se banha... Quando nos fundimos com o todo e as rugas de expressão dos lábios, dos olhos, se apertam umas contra as outras à procura da melhor posição para a ouvir... Quando me fazes chorar de alegria.... Quando a tua voz soa... tudo soa... ressoa...
(a tua voz, Maria Callas)

Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

seiva

e se, porventura, as nossas
bocas se encontrassem nas
asas da borboleta que embala
o meu sono?

e se, por acaso, as nossas
bocas se tocassem em sopros
de clarinete despido da
noite?

as nossas bocas

generosos veios
por onde corre
a seiva primeira

bolbos

os torrões de terra
caem das tuas mãos,
dos teus olhos, matam
a serpente, roca
ardilosa com esporas
de rosa perversa,
sob o sol negro
de tanto calor,
esquecidos da água
que se aventurou
no encalço da sede
dos sóis, expulsos
da galáxia negra
quando os torrões
eram ainda fecundos
bolbos no palpitar
sereno da existência

sou em ti

perdi a boca
nos teus olhos
e as palavras
nas tuas mãos

semeia-me
rega-me

colhe o fruto
com as pétalas
dos teus lábios

sente-me

corre as cortinas
e dá-me as mãos

Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008

Ámen

hoje, vou enterrar-te
como se enterram os mortos,
deixar-te inacabado
em suspensão infinita
neste ar rarefeito
do tango que me escureceu,
vou lançar-te ao mar
e cobrir-me de luto,
esquecer-te nos foles
do velho acordeão,
matar-te, com estas mãos,
e chorar toda a mágoa.
hoje, vou virar a página,
beijar os teus lábios mortos,
tapar-me com o véu mais preto
e partir da mulher que já não sou
em busca da que quero ser...

Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

orquídeas

...esquecidas sobre um banco de
jardim, as orquídeas choram
as sonatas que ainda dormem
nas tuas mãos sem acordes...

ter-te...

«São dois verbos distintos, o verbo "amar" e o verbo "ter". A posse destrói sempre o amor». In "A Última Conversa - Agostinho da Silva"
Segurei-te em parte incerta
Do meu peito, do meu ventre,
Sem mãos, sem braços,
Folheei-te ao roer uma maçã,
E li os sorrisos que me abres
Num tempo que não é este,
Que nem sequer é nosso,
Descobri em ti passeios virgens
Que atordoam os sentidos,
Sem tocar os teus lábios,
Os teus olhos, o teu rosto,
Ter-te perto, no meu ombro,
Quando a música me invade
E se dispersa como grãos de pó.
Não há amores-perfeitos
Que caibam em mãos humanas.
Ninguém quer um segundo ímpar,
Ainda que o não saiba.
Ninguém quer dois minutos em chama,
Ainda que grite ao nada por eles.
Troco o fogo por sorrisos,
Os tremores por afagos,
O indizível pelo dizível.
Antes ter-te para sempre
Que perder-te num instante...
Ainda que ter-te
Seja não te ter de todo...

Terça-feira, 15 de Janeiro de 2008

e acordo...

falésia sem fim. escarpada. negra. laminada. devorada pela aurora da descoberta. traga-me o sono. as gaivotas traçam rotas desencontradas às recordações suspensas nas mãos que ainda não conheço. desliza em perfeita simetria nesta língua corrompida o sabor do sal, das algas, dos líquenes urdidos nos teus lábios. gritas com as mãos em concha. mas eu não oiço. não oiço... perdido no horizonte, sem prelúdio. embaciado pela neblina das incertezas. as aves trazem no bico oferendas aos deuses. o sol lambe-me as mãos, o rosto, os cabelos. incendeia. arde-me. as mãos, sempre as mãos, e um rosto sem ninguém no meu sonho. o vestido que cobre este tronco noduloso esvoaça por entre os afagos marítimos. embalada. no cimo da falésia. a música que ampara os meus ombros, que calça os meus pés de lã grosseira. fulminada. vida que dói e arde nos pulmões.
e acordo subitamente, alagada em suor, a arfar, sem saber muito bem onde estou, se numa qualquer tela surrealista, se nas chamas em que estes lençóis ardem...

Sábado, 12 de Janeiro de 2008

quando o medo...

as portadas batem fortes
nas paredes de papel,
sem ritmo, em desordem,
surdas do meu terror...

quebra a onda que ensurdece
a lucidez destas mão ralas,
espuma sonhos esquecidos
sobre o soalho naufragado...

aquiesce o vento em fúria
rasurando o meu sorriso,
rasga-me memórias vãs
e espreita, taciturno...

aqui dentro...
bem fundo...

Sábado, 5 de Janeiro de 2008

um dia na vida de um menino

...queria escrever e não tinha como. nem papel, nem lápis. nem um painel de areia para resgatar ao mundo dos sonhos as palavras que queria entrelaçar com toda a doçura que conhecia. fez um trejeito maroto, enfiou as mãos nos bolsos, e lá foi andando pelo caminho de terra batida, com cheiro a folhas douradas, a coelhos a sair da cartola, a aviões mágicos que rasavam o manto de erva viçosa e, logo no minuto seguinte, alcançavam as nuvens penduradas lá bem no alto. e decidiu que ia escrever mais logo, quando a noite se lembrasse que era hora de começar a sacudir magos e feiticeiras para encantar todos os meninos. escreveria nas estrelas (se o céu estivesse limpo) ou até mesmo no vapor de água condensado colado às janelas (caso o céu não quisesse ser incomodado).
mais alguns passos dançantes e despreocupados à frente, e logo as mãos voaram para alcançar um cão pequenito, que mal abria os olhos, perdido do tempo das mães, no frio ingrato das pedras que conspiravam contra as pequenas almofadas das suas patas. parecia até que ainda não sabia andar... aconchegou o cãozito, abriu o fecho do casaco até meio e, sem pensar duas vezes, enfiou-o ali mesmo junto ao peito, segurando-o com as suas mãos de menino.
claro que, entretanto, já tinha escrito todo um conto fantástico com os olhos na paisagem que se ia abrindo à sua passagem. e recitava-o, de cor e salteado, como se a convencer-se, resoluto, que ia reescrever aquela estória junto da mãe e que ela já fazia parte dos seus próximos dias. até àqueles dias em que, quando deixasse de ser menino, voltaria ao dia de hoje para se reencontrar...

Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008

a porta

recôndito eco
de um porquê circular
que nada devolve
nem vocábulo expele,
plasma maligno
sitiado em mim
que um gargalo fendido
não resgata aos demónios,
emparedada entre dois mundos
que me perdem a carne
no beijo do anjo sem rosto
que faz a vigília dos passos,
soergue-me o alcance dos sonhos
nas letras orvalhadas de afectos,
nos mistérios que o amanhã guarda,
nos abraços confiados ao vento,
rasga o círculo,
abalroa o plasma,
abre a porta.

(para a Irneh)

Sábado, 29 de Dezembro de 2007

o apanhador

caiu a lua circular
na palma da tua mão
e todos os astros estelares
nos nós dos teus dedos
e quando o negro
perdeu a cor
dos contrastes
que nos bebem os olhos
só tu brilhaste
na minha pele
e foste capaz
de chamar o meu nome
rugindo as entranhas da terra e
uivando os cristais de sal
com que me pintaste
nos teus sonhos arbóreos,
só tu te saciaste em mim
na refrega da fome
sem nome,
só tu exististe
porque nasceste
para podar os meus braços,
só tu foste,
só tu...
que andas por aí,
apanhador de astros,
planetas e cometas,
que da poeira cósmica
hás-de fazer o berço
do resto das horas.
ainda tenho aquela estrela
que me deixaste
quando estava desprevenida.

eu dizia-te...

eu dizia-te
que o sonho acontece,
não fosse sentir
que te escapas por entre os dedos
como a areia de um relógio,
dizia-te que quando se ousa... acontece,
não fosse pressentir
que levantas amarras
para navegar os ponteiros que te faltam,
dizia-te (sussurrando...
bem perto do teu peito)
que o fogo foi criado
para arder e...
as mãos...
para explorar os rostos
de cada boca
que nos atravessa
nos ângulos imperfeitos,
dizia-te mentiras e verdades
só para te desfrutar,
não fosse esta avareza de alma
destruir a delicada teia
de fios invisíveis que...
estendeste até mim.
dizia-te
tudo isto,
dizia-te
tudo o que não disse.

Boas Entradas em 2008



A Piedade Araújo Sol, do blogue http://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/, ofereceu-me um mimo.

Tenho de indicar quem me atribui o prémio, atribuí-lo a 7 blogues que "até não sejam maus blogues" e fazer referência ao criador do prémio.

Primeiro, agradeço à Piedade o carinho que me oferece com a ternura que lhe é característica. Não quebrando a corrente, mas também não querendo ser injusta, passo a indicar os seguintes blogues para o prémio, sem, no entanto, deixar de dizer que gosto muito de todos os blogues que visito, cada um deles por razões que são só de cada um:

Porque a sua escrita é, a meu ver, pura e simplesmente brilhante, para a Maria M., do blogue http://www.blogcompalavrasaofundo.blogspot.com/

Porque os seus poemas estão carregados de sentidos que apetece percorrer, para o Carlos Ramos, do blogue http://www.penichecarlos.blogspot.com/

Porque imprime mestria, sabedoria e uma belíssima lucidez aos seus lindos poemas, para o Torquato da Luz, do blogue http://www.oficiodiario.blogspot.com/

Porque fico presa às suas palavras, quer escreva prosa, quer poesia, e seja sobre que assunto for, para o Bruno, do blogue http://dancamosnomundo.blogspot.com/

Porque os seus escritos poéticos são de inegável e franca qualidade, para a Helena F. Monteiro, do blogue http://www.linhadecabotagem.blogspot.com/

Porque fico enleada na imaginação que tão bem distribui pelos belos textos que escreve, para o "rato do campo", do blogue http://boanoitequeijo.blogspot.com/

Porque os seus poemas me tocam lá bem no fundo e me fazem pensar, para a ~pi, do blogue http://pas-s-ages.blogspot.com/

Aproveito o gesto da Piedade para dizer que, desde que criei este blogue, tenho conhecido pessoas maravilhosas neste mundo da blogosfera, cada uma à sua maneira, as quais me parece que seria muito improvável vir a conhecer no decurso de toda uma vida sem que existisse a internet. Valendo-me, por isso, da aproximação do ano de 2008, quero dizer A TODOS: MUITO OBRIGADA POR TUDO O QUE ME OFERECERAM. É IMPAGÁVEL!

À semelhança deste ano, que está à boca do fim, desejo a todos que o ano de 2008 vos possa fazer sentir que VALE A PENA, porque vale mesmo!

Boas Entradas! :)